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terça-feira, 5 de agosto de 2008

David Mourão-Ferreira

CASA

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só pode dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.


(Não consegui ficar sem postar este poema tb, O David é ótimo!)

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